Menino Aberração

Bruno Marotta

Ele tinha todos os dentes
Brancos, limpos, um brilho aparente
Mas nunca se via seu sorriso
Pois ele só andava esondido

Ele tinha um belo nariz
Mas isso não o fazia feliz
Pois uma estranha anomalia
Deturpava a sua fisionomia

Não tinha pelos
Nem mesmo sombrancelha
E por essa estranha condição
Era chamado de menino aberração

Menino aberração, não tinha nenhum pelo
Menino aberração, não tinha nem cabelo
Menino aberração, não tinha sombrancelha, não

E assim ele vivia recluso
Preso no seu mundo confuso
Até que um dia, um jovem doutor
Descobriu sua vida cheia de dor

Resolveu então trazer um sentido
Àquele menino um tanto perdido
Com um emprego peculiar
Que muitas vidas iria salvar

Então virou cobaia
De novos remédios
Provar drogas nunca dantes usadas
Era sua grande empreitada

Menino aberração, não tinha nenhum pelo
Menino aberração, não tinha nem cabelo
Menino aberração, não tinha sombrancelha, não

Mas nossa estória tem um final singular
Pois sua glória veio após a hecatombe nuclear

Foram anos de guerra e de luta
E no fim dessa longa disputa
Os poucos que sobraram à destruição
Amargavam os efeitos da radição

E nesse fato nefasto
Reside nosso pulo do gato
O nosso herói de tanto tomar remédio
Gozava de um novo privilégio

Devido a mutações
Ganhou imunidade
E com seus genes mutantes
Iria dar início à nova humanidade

 

  Outras letras: Wagner, o taxista Vizinhas